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quinta-feira, 30 de abril de 2015

O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ - MOACYR SCLIAR




Venho com Engenheiros do Havaii na cabeça já há alguns dias, passo pela banca de jornal e vejo o pocket,  nem sabia da existência deste livro. Lembrei-me da estante arrumada, a fila que se formou entre livros emprestados ou comprados, devidamente etiquetados pra saber que estão me aguardando e claro, lembrar-me que não preciso mais comprar livros. Sendo assim, comprei este. Ah! Baita coincidência vá!

Agora, ao iniciar a escrita sobre ele, lembro-me que ainda quero colocar sobre a leitura anterior a esta, mas como foi longa, assim que possível retomo.

Moacyr Scliar tem uma escrita com um tipo de humor que me agradou, uma obra de ficção com dados históricos reais bem interessantes. Capitão Birobdjan é um utopista do caminho marxista, admirador de Rosa de Luxemburgo e Stalin. Iniciando por várias vezes a construção de sua nova sociedade, que passa da sua extrema esquerda a sua extrema direita quando em sua meia idade, findando... Ah! Não vou contar o final. Tá, ele morre. Contei. Mas não contei sua ultima construção da sua nova sociedade.

Quem é de Porto ou passou por lá, vai rememorar alguns locais...

Alguns trechos do livro remeteram-me a  “Revolução dos bichos” de Orwell, mas como faz muito, muito tempo mesmo que li este, tanto tempo que foi escolhido pela cor e pelos bichos da capa, não sei dizer com precisão, mas enfim...

Cada qual com sua utopia, que pode ser desentupir a pia... Tá.Horrível. Eu sei.

“Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Somos um exército, o exército de um homem só
Sem bandeira
Sem fronteiras
Pra defender
Pra defender...” – Engenheiros...

Seguem trechos interessantes do livro e que valem reflexões:

“ A casa está redividida; uma parte será o Palácio da Cultura, em outra funcionará o Comitê Político. Em outra funcionará a redação da  A voz de nova Birobdjan. Neste grande empreendimento Mayer Guinzburg terá aliados: A Camarada Aranha, o Camarada Rato, e o Camarada Inseto. Mayer Guinzburg gostará da Camarada Aranha, do Camarada Rato, mas não gostará do Camarada Inseto; não saberá por quê mas não gostará. Se esforçará para gostar, mas não gostará. Fará autocrítica a respeito, mas não gostará. Talvez porque o Camarada Inseto permaneça indefinido: nem bem formiga, nem bem barata, e esta ambigüidade, Mayer Guinzburg sabe, poderá no futuro se expressar sob a forma de desvios ideológicos...”

“Como permitir que o derrotismo dominasse os Companheiros Animais?Que conseqüências desastrosas isto não acarretaria para Nova Birobidjan- A Companheira Cabra dando menos leite por exemplo. Preferível mentir. Birobidjan sabia que uma mentira progressista vale mais que uma verdade reacionária...”

“A Companheira Galinha (...)Era nervosa, sensibilizava-se por qualquer coisa e cacarejava sem parar- improdutivamente, pois não punha ovos, era um peso morto.(...) O editorial era uma proclamação dirigida especialmente a Companheira Galinha concitando-os a aumentar a produção”

“Não pode contar com Santinha, a quem falta base ideológica, treinamento militar, disciplina. Se tivessem mais tempo, que companheira ela seria, que companheira! Como Rosa de Luxemburgo!”


´”Relações pessoais não tem nada a ver com relações de produção...”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Factotum - Bukowski

Henry Chinasky, mantendo a paixão por escrever artigos, em sua grande maioria com as publicações negadas, relata seus trabalhos temporários, hotéis baratos e vida noturna e alcoólica durante a segunda guerra mundial.
O velho Buk em seu segundo Romance. 
Uma pena, não cairá em conhecimentos gerais ou português na próxima prova de concurso... eu deveria tá estudando... Quer saber? Eu deveria tá lendo exatamente Bukowsky! 
Ah... os trabalhos temporários...
Ah... o trabalho em si...



Seguem os trechos interessantes:

"...Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias.Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a agua dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia.Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia.A escuridão do quarto era como um dia ensolarado pra mim. Tomei um gole de vinho."

"...A ideia de me sentar diante de um homem em sua mesa e lhe dizer que eu queria um trabalho, que eu tinha as qualificações necessárias, era demais para mim. Francamente, eu estava horrorizado diante da vida, o que um homem precisava fazer para comer, dormir, manter-se vestido. Então fiquei na cama enxendo a cara. Quando você bebe o mundo continua lá fora, mas por um momento
é como se ele não o trouxesse pela garganta."

"...Mas, finalmente, com Carmem me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei em céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste- faltava na certa algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual eu não sabia lidar."

"...Vagabundos de rua indolentes, todos nós que ali estávamos tínhamos consciência de que nossos dias estavam contados.Então relaxávamos, esperando pelo momento em que nossa inépcia viria a tona.Neste meio-tempo, vivíamos de acordo com o sistema, dávamos umas poucas horas honestas e bebíamos juntos durante a noite."

"... -Manny, o que você faz trabalhando numa loja de autopeças?
-Descanso. Minha ambição é consumida pela preguiça.
Tomamos outra cerveja e voltamos ao serviço"

"Era verdade, eu não tinha muita ambição, mas devia haver um lugar pra pessoas assim, digo, um lugar melhor do que o tradicionalmente reservado.Como, diabos, um homem pode gostar de ser acordado as 06:30 da manhã por um despertador, sair da cama,vestir-se, alimentar-se a força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego pra chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro o bolso de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber esta oportunidade?"

"...O motorista se recostava, e nós seguíamos por esta faixa estreita de cimento completamente cercada pela água, e todos a bordo, as vinte cinco ou trinta pessoas confiavam nele, mas eu, jamais.As vezes era um motorista novo e eu pensava, como eles selecionavam esses filhos da puta? Havia água profunda nos dois lados, e um erro de julgamento mataria todos nós. Isto éra ridículo. Suponha que ele tenha brigado com sua mulher naquela manhã? Ou que tenha câncer? Ou que tenha visões de Deus?Um dente podre?Qualquer coisa.Seria o suficiente pra ele. Lá estaríamos nós no fundo do mar. Sei que, se eu estivesse dirigindo, consideraria a possibilidade ou o desejo de afogar todo mundo.
E algumas vezes, depois de ter feito esta consideração, a possibilidade passaria a ação.Para cada Joana d´Arc há um Hitler suspenso do outro lado da balança.A velha história do bem e do mal. Mas nenhum motorista jamais nos lançou no mar. Por suas cabeças não passava mais do que prestações do carro, resultados de beisebol, cortes de cabelo, férias, enemas, visitas familiares. Eu sempre chegava enjoado no trabalho, ainda que em segurança.O que demonstra porque Sshumann é o melhor termo de comparação que Shostakovich."


" A Companhia de Gás do sul da Califórnia punha anúncios nos classificados com promessas de altos vencimentos, aposentadoria com pouco tempo de serviço etc. Não sei quantas vezes preenchi os formulários amarelos de requerimento, quantas vezes me sentei naquelas cadeiras duras, olhando para as grandes fotos emolduradas de dutos e tanques de gás. Jamais tive perto de ser contratado e, sempre que via um sujeito trabalhando para Companhia de Gás, eu o olhava com toda atenção, tentando descobrir o que ele tinha que eu, obviamente não."







sábado, 3 de janeiro de 2015

A PROPRIEDADE É UM ROUBO E OUTROS ESCRITOS ANARQUISTAS





Começa o ano novo ocidental, começar estudando gramática da língua portuguesa pra quê, não é mesmo? Sem sentimento de culpa por não estar temporariamente pensando no gosto salgado do salário frente ao mar e um futuro incerto, durante esta semana, pelo menos. Vamos nós, eu, você e as moscas que acompanham este blog para as leituras que interessam.

Embora o absurdo e a ausência de qualquer leitura seja o oposto complementar, espero buscar com algumas delas  sentidos pro mundo, desfazer sentidos que fui atribuindo a ele conforme as experiências e porque não re significar alguns? Não fazer mais aquela expressão de interrogação atônita quando a pessoa se considera libertária, anarquista e vota.(tá, o absurdo disso, a mim, continua) Quanto tempo de repetição até o arrependimento e constatação de incongruências? O que pode ter de conteúdo cristão dentro de alguns anarquismos? Falando em profetas, tio Proudhon antevia um socialismo autoritário. O que ele disse sobre o comunismo? De quais “propriedades” ele trata?Proudhon está para o anarquismo como Freud pra psicologia, com seus prós e contras...

Proudhon, vislumbra em sua trajetória de vida e escritos, possíveis diálogos para estas e outras questões.

A coleção de bolso L&M pocket, não consta os textos integrais, estão cortados conforme seleção dos editores com suas referências em rodapé. Então os (…) entre os dizeres de um mesmo texto foi conforme o corte de quem os fez, assim como as traduções do francês. Ainda assim, achei legal, dá um panorama das ideias centrais.

Seguirei com as citações interessantes, que são outros cortes dos cortes...

Acho válido registrar as autodenominações surgidas quando trata-se de alguém relevante para o assunto em abordado, embora eu não tenha inclinações pra biografias.

“… “(...) Que forma de governo iremos preferir?
_ Em! Vós podereis perguntá-lo; sem dúvida qualquer um de meus mais jovens leitores responde, “vós sois republicano”
_ Republicano, sim; mas esta palavra não especifica nada. Res publica é a coisa pública. Ora, quem quer que queira a coisa pública, sob qualquer forma de governo que seja, pode se dizer republicano. Os reis também são republicanos.
_Então vós sois democrata?
_Não
_Como! Sereis monarquista?
_Não
_Constitucional?
_Deus me livre
_Então vós sois aristocrata?
_De modo nenhum
_Vós quereis um governo misto?
_Menos ainda
_O que sois então?
_Eu sou anarquista
_Eu o entendo! Vós fazeis sátira; isto está dirigido ao governo.
_De maneira alguma: vós acabais de ouvir minha profissão de fé, séria e maduramente refletida; ainda que muito amigo da ordem, eu sou, com toda a força do termo, anarquista. Escutai-me...”


“...Sempre tive, terei eternamente, o poder contra mim: é esta a tática de um ambicioso e de um covarde?...”

“... Eleito há quinze dias representante do povo, entrara na Assembleia Nacional com a timidez de uma criança, com o ardor de um neófito. Assíduo, desde nove horas, às reuniões das comissões e dos comitês, só deixava a Assembléia a noite, extenuado de fadiga e desgosto. Desde que coloquei os pés sobre o Sinai parlamentar deixei de estar em relação com as massas, à força de me absorver em meus trabalhos legislativos, perdi inteiramente de vista a marcha das coisas(...)É preciso ter vivido neste isolador que se chama Assembléia Nacional para conceber como os homens que ignoram mais completamente o estado de um país são quase sempre aqueles que o representam...”

“ O Estado não negocia nada comigo, não permuta nada, ele me saqueia”

“Ora, nada de autoridade, isto quer dizer o que nunca se viu, o que nunca se compreendeu, harmonia do interesse de cada um com o interesse de todos, identidade da soberania coletiva e da soberania individual”

E a clássica...

“...Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não tem nem o título, nem ciência, nem virtude.
Ser governado é ser, em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado...(...)
E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, proletários que admitem sua candidatura a presidente da república! Hipocrisia!...”





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

KILL ALL ENEMIES - Melvin Burgess



Se as marés da vida agitam-se muito, quando parece que a tempestade não vai passar e realmente o mundo começa a parecer mais insano do que já é, tendendo a uma pitada alta de pessimismo e revolta; é hora de ler poesias, romances, meditações ou livros de auto-ajuda. Como dos últimos de auto-ajuda risquei algumas páginas e outros dei fim, restou-me então buscar alguma outra opção.

Na rodoviária me deparo com este título  Romance “kill All Enemies” “– Você já teve a sensação de não se encaixar no mundo?” Tá okay, você e as moscas podem dizer: poderia ter pegado qualquer outro título, algum do tipo “como tornar a vida cor de rosa”, se é pra baixar o pessimismo e a revolta...
Mas este é indicado para “pais, filhos e todo mundo que estiver disposto a ler uma história bela e emocionante...” E ah! Vem bem a calhar! E na real, não é preciso baixar tanto estes ímpetos assim.Não tive nem coragem de abrir o de capa cor de rosa, certamente seria pior fazer uma leitura do tipo.

Leio, depois passo pra uma amiga que está com filho pré adolescente, além do que, fez-me relembrar a adolescente que fui, da qual ainda carrego vestígios, embora com com ressignificações. Qual adolescente sente-se “encaixado” no mundo? Eu não me sentia, assim como nenhum dos meus amigos desta fase...

São adolescentes que contam suas experiências cotidianas a partir das instituições: família, escola e assistência social, ou seja, ações e reações de três subjetividades que vão “moldando” suas condutas a partir destas relações e se encontram nos seus momentos.

“Era a aula do Sr Wikes, o sujeito mais tedioso do universo. Para ele ensinar significava ficar de costas pra sala, desenhando na lousa. Isto não é ensinar. É uma fraude. Se os alunos torturados por ele não fossem um bando de crianças, ele seria processado.”-Chris

“Sua menina preguiçosa, como você é burra, nem este pouquinho de lição você fez. Me dava vontade de gritar...Eu podia ter feito aquilo sem problemas, se eu não tivesse caído no sono enquanto cantava pro meu irmãozinho dormir”- Billie

“O Metallica resolve a maioria dos meus problemas. Quando o Metallica está tocando, não tenho porque me irritar. E nem sentir medo, e nem me preocupar. Eles cuidam de tudo por mim. Quando escuto Metallica eu me sinto um deus”- Rob

“Billie precisa ser durona porque tem o coração mole. É a única maneira que ela encontrou de sobreviver. É por isso que o caso dela é tão especial. Aquela menina tem o coração mais generoso que já vi. Se as outras pessoas soubessem, se pelo menos ela soubesse.”- Hannah








domingo, 25 de maio de 2014

A Queda - Albert Camus

Um monólogo. Narrador Jean Baptiste Clemence, auto denomina-se juiz penitente, advogado.Mas particularmente prefiro os trechos em que se auto denomina papa, e também, certamente por identificação, quando denomina-se ourives, nesta última visando a necessidade de um ambiente sem livros.
Local: Amsterdã

Uma amiga: - Já terminou de ler o livro, me empresta?Qual é a história
Eu: -  Sim, é narrativa em primeira pessoa.Ele é um advogado. Nas primeiras páginas é difícil, mas insiste que depois flui.
Ela, uns minutos depois: - Com quem que ele tá falando? A pessoa nunca responde!
Eu: - Se esperar a pessoa responder, vai esperar o livro inteiro. A pessoa nunca vai responder.
Amiga: Ah!Por isto! O autor é do teatro, por isto você gostou...não gostei, me empresta outro.
Eu: Eu nem sabia que ele era do teatro, fiquei sabendo por este livro mesmo, que no final fala da vida dele...
Penso:- Do teatro e ficou apenas um ano no partido comunista, tai mais motivos pra gostar dele, realmente.
Amiga: - Empresta outro.
Eu: (Empresto A Morte Feliz do mesmo autor e Belas Imagens da Simone) até agora não obtive impressões sobre a leitura...



Trechos:

"Quer ter uma vida limpa?Como todo mundo?" É claro que a resposta é sim. Como dizer não?"Está bem. Pois vai se arruinar. Pegue aí um emprego, uma família, férias organizadas." E os pequenos dentes cravam-se na carne até os ossos.Mas estou sendo injusto. Não se deve dizer que a organização é deles.Ela é nossa, afinal de contas: é o caso de saber quem vai arruinar o outro..."

"As profissões me interessam menos que as seitas"

"Gozava minha própria natureza, e todos nós sabemos que é aí reside a felicidade, se bem que, para nos 
tranquilizarmos mutuamente, demonstrássemos por vezes, condenar esses prazeres sob o nome de egoísmo"

"Imagine os cartões de visita: Dupont, filósofo apavorado, ou proprietário cristão, ou humanista adúltero, a escolha é grande, na verdade. Mas seria o inferno! Sim, o inferno deve ser assim: ruas com tabuletas e nenhuma possibilidade de explicação. Fica-se classificado, de uma vez para sempre..."

"Bem entendido, o verdadeiro amor é excepcional, dois ou três em cada século, mais ou menos.No resto do tempo há vaidade ou o tédio."

"Uns gritam: "Ame-me!". Outros: "Não me ame!". Mas uma certa raça, a pior e mais infeliz: "Não me ame  e seja fiel!".
Veja - só que a verificação nunca é definitiva, é preciso recomeça-la com cada ser. De tanto recomeçar, criam-se hábitos."

"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los de certa forma.Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria castigado. Compreendi que não tinha amigos.Além disso, mesmo se os tivesse não adiantaria nada. Se pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então sim, valeria a pena..."... Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade de nossos sentimentos com a nossa morte. Enquanto vivos, nosso caso é duvidoso, só temos direito ao seu ceticismo..."

"Vou contar-lhe um grande segredo meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias."

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O abajour lilás - Plínio Marcos





Peça em dois atos, três atrizes e dois atore, compacta. Se passa num puteiro. Leitura feita no centro cultural SP aguardando a hora de prestar o concurso. É, não estudei raciocínio lógico..

Elogio da Loucura - Erasmo


Não, decididamente não será questão de concurso público optar em a, b ou c qual a postura de Rotterdam frente a igreja católica. Então, por vezes continuo a me perguntar: por que diachos ainda faço este tipo de leitura se preciso ganhar dinheiro? Não seria mais sensato estudar raciocínio lógico ou teorias da personalidade, Lacan que adoram colocar em prova, por exemplo?
Então, posto aqui o que por ventura possa ser de alguma utilidade pra você e as moscas.Se não hoje, daqui um tempo, como reparo na procura sem zumbidos de outros posts antigos.
Erasmo é a própria loucura se elogiando, chamou-me bastante atenção as colocações “dela” em relação as mulheres. Quando citado “homem” a maioria das vezes tem significado de espécie humana, humanidade; outras vezes aparece com o sentido de gênero mesmo. Claramente o autor tinha consciência em relação a esta diferenciação.



Segue trechos:

“...Não falarei no entanto, como os pedantes que sobrecarregam hoje as cabeças das crianças com um monte de tagarelas difíceis, e que lhe ensinam a discutir com mais teimosia que as mulheres...”

“...é verdade que a mulher é um animal extravagante e frívolo; mas é também divertida...”

“..não creio que as mulheres sejam loucas a ponto de se zangarem com o que digo aqui, sou do sexo delas, sou a loucura...”

“...as mulheres ao contrário, tem a face lisa, a voz suave, a pele delicada, tudo nelas oferece a imagem encantadora de uma juventude contínua, aliás, tem elas outro desejo na vida se não agradar os homens?...”

E por aí vai... termina o que toca a esta questão de gênero assim:
“...lembrai-vos, peço-vos que é a loucura, que é uma mulher que acaba de vos falar, mas lembrai-vos também deste provérbio grego: “um louco diz as vezes coisas boas” – a menos que penseis que as mulheres sejam uma exceção a esta regra geral...”

Sim, também tem muita coisa boa que este louco discorre, principalmente quando coloca sobre os teólogos (ele mesmo o era) e começa a analisar Eclesiastes e São Paulo. Não vou citar aqui pra não perder o auge da leitura.

Segue outras colocações bem interessantes:

“...Os poetas não me devem tanta obrigação, sua condição mesma lhes dá o direito natural aos meus dons...”

“...O numero de nós que prendem o calçado, a cor e a largura do cinto, a tonalidade do hábito, o tecido com o que ele deve ser feito, a forma e o tamanho preciso do capuz, o diâmetro exato da tonsura, o numero de horas destinadas ao sono, tudo é determinado, medido, fixado. Imaginai os belos efeitos que esta uniformidade deve produzir entre espíritos e corpos tão diferentes entre si!...”

E a melhor:

“... Ora, o que é a vida? É uma espécie de comédia contínua, em que os homens, disfarçados de mil maneiras diferentes, aparecem em cena, desempenham seus papéis, até que o diretor, depois de tê-los feito mudar de disfarce e aparecer ora sob a púrpura soberba dos reis, ora sobre os andrajos repulsivos da escravidão e da miséria, força-os a finalmente sair do palco. Em verdade, este mundo não é senão uma sombra passageira, mas assim é a comédia que nele representamos todos os dias...”







quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O ASSASSINATO DO ANÃO DE CARALHO GRANDE - Plínio Marcos



Já fazia um tempo que queria ler esta peça do Plínio Marcos. Legal, porque tem o texto literário e o texto pra teatro. Também queria ter visto a apresentação dirigida por Marcelo Drummond, mas não foi possível.
O tipo de humor que faz com que a leitura flua.
Quem matou Janjão o anão do circo? Eis a questão... muitos tinham seus particulares motivos pro assassinato.


Segue trechos:

Sobre Di, a mãe da tribo: “ Sua autoridade não era a que os cargos e situações emprestam. Sua autoridade era sua mesmo, consequência de uma vivência intensa e sem máculas, referendada por todo respeito, carinho e veneração que a gente da viagem lhe devotava...”

“...Como o homem instalado tem ódio de quem se move, de quem não tem residência fixa, emprego permanente e os cambaus, perseguem, espancam, expulsam dos lugares que se atrevem a passar. Simplesmente passar. Puta que os pariu! Homens-pregos. A gente da viagem traz alegria, emoção, poesia,sonho...Porém (e sempre tem um porém),é justamente o que o homem instalado teme. Isto tudo perturba os hábitos seguros de sua rotina, o imobilismo do seu dia a dia. Um bando de vagabundos passando...”

“...É amargo ser envolvido pela dúvida em relação aos companheiros. Desconfiar do próximo, dos colegas, dos camaradas de jornada, puta veneno...”

“O referencial mudou: trabalha? Produz? Consome?Tudo bem. Quem se enquadra está enquadrado...O cigano não é melhor nem pior do que ninguém.Se solta as amarras, rompe com as raízes...babau. Muitos foram se fixando...”

terça-feira, 13 de novembro de 2012

MEMÓRIAS DE UM RATO DE HOTEL

Estava na biblioteca do Sesc, na verdade verdadeira (como diria minha avó) gostei e escolhi o livro pela capa  (coisa que diz o ditado que não se deve fazer). Também gostei do título da mudança da foto e do que estava escrito atrás: "Poque os criminosos tem duas faces, as que apresentam ao público e a que apresentam aos colegas e companheiros de crime. Ambas infelizmente são mentirosas"
É incrível como existe gente habilidosa em ser vários e atuam fora dos palcos de teatro...Talvez por isso, me interessou a contracapa.
Não fica claro se o autor é João do Rio ou um relato do "Dr. Antônio" gatuno gaúcho, ou ainda se feito a quatro mãos...
Transmite os ares das ruas...
1917 se não me engano, já devolvi o livro...

Segue trechos:

" ...para o público só há uma preocupação: mostrar inocência. Para os colegas só há um desejo: mostrar uma grande habilidade e uma grande sorte cínica..."



“...No primeiro crime o maior bandido é sempre a vítima. Ide procurar as causas e haveis de vê-las terríveis, culpando inexoravelmente os que impeliram a prática da ação contra o código...”

“Como se alguém se emendasse na correção. É a fantasia mais disparatada dos homens...Olhei muito tempo a escuridão, sem chorar. Não era nem Artur Maciel, nem “Dr Antônio”, era um numero, um numero e mais nada...”

“ E faço de gentleman ou de mendigo o dia inteiro sem discrepância. O andar, a atitude dos ombros, a expressão do olhar, tudo isso é definitivo...”

“Estou admirado de mim mesmo, isto é, do outro que toma conta do meu corpo. Certo, as ciências ainda hão de evoluir muito modificando a compreensão do direito criminal...no dia em que a psicologia ocultista for aceita, meu caso por exemplo não será considerado vulgarmente.Eu condenado por tentativa de furto? Eu condenado por provado roubo?..É preciso ser completamente obtuso pra me comparar com qualquer um desses cavalheiros. Eu sou diferente senhores do meu corpo, há um Artur, o rapaz ocioso filho de boa família, um pouco vaidoso e femeeiro, e outro, o “Dr. Antônio”, diabólico, ousado, fantástico. E o “Dr. Antônio” que me perde, que me arrasta...”

“...Julgar através do cárcere, conforme o código, é como um médico que receita conforme a moléstia indicada sem ver o doente...”







segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ame e dê Vexame


Ame e dê Vexame

Releitura após uns dez anos mais ou menos... Biblioteca do Sesc.
Hoje Reich já não é que foi, mas salve  Perls e a gestalt!
Um livro sobre amor em liberdade, coisa mais difícil que fácil.

Segue trechos:

“...Quando se optou pela liberdade, deve-se ter sempre em mente a possibilidade da solidão. A conquista da liberdade, incluindo a liberdade no amor, é uma longa batalha contra inimigo poderoso, o autoritarismo. Inúmeras vezes em nossa vida ele nos derrota, nos aprisiona, nos tortura e nos põe em fuga por terras estranhas. Em qualquer uma dessas situações, somos obrigados a conviver cotidianamente com a solidão...”

“...Mas, como resolver a seguinte questão, que se abre nessas circunstâncias: a possibilidade e o direito ao amor e a liberdade simultaneamente?
Não conheço outra coisa para responder a não ser com aquilo que é visível aos outros animais, e faz parte também, creio, da natureza do homem: a ludicidade. Ludicidade significa a capacidade de brincar e jogar, pra não cair nos jogos e brinquedos autoritários das pessoas que não são lúdicas e devem ganhar sempre, nem que pra isso tenham de mudar as regras do jogo, roubar no jogo, destruir o jogo ou os próprios parceiros...”

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

AS BELAS IMAGENS - Simone de Beauvoir




S
em muito tempo pra me dedicar a leitura, escolhi este livro, por gostar do estilo da autora e custar R$ 7,00 no sebo.
Não é dos que mais gostei, mas vale a pena. A mistura de narrações confunde um pouco no começo, mas depois engrena e vai!
Laurence é publicitária, bem sucedida. Enxerga as imagens dos produtos “trabalhadas” para se tornarem produtos desejáveis; mesmo quando não está a trabalho ela se "pega" nesta avaliação.Casamento, filhas, amante, sem acreditar em ensinamentos religiosos, tem alta admiração pelo estilo de vida do pai, até decepcionar-se com suas expectativas.
Começa a questionar –se e comparar-se com a filha mais nova, que em virtude de uma amizade com outra menina ,tende a se perguntar sobre o sofrimento no mundo.

Segue trechos:

“...Por que Jean Charles de preferência a Lucien? O mesmo vazio se cria as vezes quando está com um, com outro; só que entre ela e Jeana Charles há as crianças, o futuro, o lar, o laço sólido; perto de Lucien, quando não sente mais nada, ela está a frente de um estranho. Mas se fosse com ele que tivesse casado? Não seria nem pior nem melhor, acha ela. Porque um homem de preferência a outro? É estranho. A gente se amarra para o resto da vida a um cara, porque foi ele que encontramos aos dezoito anos. Não está sentida que tenha sido Jean Charles, longe disso...”

“ ...Socialistas ou capitalistas, em todos os países do mundo, o homem é esmagado pela técnica, alienado ao seu trabalho, subjugado, embrutecido...”

“..."E agora, como agir?” ela se pergunta sentando novamento no sofá. Ascende um cigarro. Nos romances à moda antiga, não param de ascender cigarros, é artificial, diz Jean Charles. Mas na vida real isso se faz frequentemente quando as pessoas precisam parecer mais à vontade...”

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A arte de escrever –Arthur Schopenhauer



Este livro me apareceu no carnaval passado, na porta de um quarto no RJ, com mais um do Fernando Pessoa e dois filmes, um deles: “Os sonhadores”.
Quem me presenteou não cheguei a conhecer devido a uma série de desencontros, ou talvez não tenha havido desencontro algum.


Basicamente trata do não pensar quando se lê. Das imperfeições das traduções, da importância das línguas antigas, da arte de escrever e decadência da literatura de sua época. Diferencia bons autores da literatura de consumo, fala sobre a importância dos clássicos e “desce a lenha” na prolixidade do Hegel. Tudo com a clareza e originalidade que só ele tinha e era pouco reconhecida em sua época.

Segue a seleção de trechos interessantes:

“... Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhe sobra tempo para obtê-los...”

“... A leitura não passa de um substituto do pensamento próprio. Trata-se de um modo de deixar que seus pensamentos sejam conduzidos em andadeiras por outra pessoa...”

“ ...É possível a qualquer momento sentar e ler, mas não sentar e pensar...”

“Nas ciências cada um quer  trazer algo novo para o mercado, com o intuito de demonstrar seu valor;com frequência, o que é trazido se resume a um ataque contra o que valia até então como certo, para pôr no lugar afirmações vazias...”

“...Não há nada mais fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos significativos de modo que todos compreendam. O ininteligível é parente do insensato, e sem dúvida é infinitamente mais provável que ele esconda uma mistificação do que uma intuição profunda...”

“ ...Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é sempre o sinal inconfundível da mediocridade; em contrapartida, o sinal de uma cabeça eminente é resumir muitos pensamentos em poucas palavras...”

“...Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar...”

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Todo o Teatro de Pirandello - Carlo Prina


Na verdade, comprei esse livro no sebo porque quando fui folhear-lo achei uma poesia Italiana em jornal, poesia de um tal de Luciano Folgore, duma época em que SP tinha seis dígitos de telefone.
Sim, comprei um livro só porque tinha um papel solto dentro dele de quando SP tinha apenas seis dígitos de telefone. Mas também, porque não saber um pouco de Pirandello? Leitura rápida.


Cosi é... se vi pare!
Dal libro Scrittori allo specchio di Luciano Folgore

Come il fu Mattia Pascal
Sono morto e sono vivo
faccio i uomo putativo
professione teatral

ché nella famiglia umana
noi nin siamo ció che sianmo
ma sol quello che appariamo
quidi ogni certezza é vana...

(Omaggio Del “Giornale degli Italiani” )

Assim é... se lhe parece!
(Escritores do livro num espelho de Luciano Folgore)

Como o falecido Mattia Pascal
Estou morto e estou vivo
Eu faço o humano putativo
Profissão teatral

Porque na família humana
Nós não somos o que nós somos
Mas apenas aqueles que pareciam
Portanto, qualquer certeza é inutil....


Enfim, são peças comentadas que servem apenas como uma prévia, além de saber sobre as interpretações de alguns atores e atrizes da época, como Cacilda Becker e Paulo Autran. Creio valer a pena ler algo mais recente e conhecer as peças. Em especial: “Assim é... se lhe parece...”, Henrique IV” “Seis personagens  a procura de autor”, “vestir os desnudos” e “A nova colônia”.


"Putativo", tema frequente nas obras de Pirandello:
Adj. Suposto, julgado.
Filho putativo,filho nascido de casamento putativo.
Dir.Casamento putativo, casamento que, suscetível de anulação, produz, todavia, até efetivação desta, todos os direito civis de um casamento válido para os filhos e o esposo que procederam de bioa fé quando de sua celebração... (dicionário on line)







sábado, 15 de outubro de 2011

Anarquismo - Uma história das idéias e movimentos libertários Vol 2 O movimento George Woodcock


 Hoje tem outras edições, este me foi apresentado no sebo... Nem éra o livro que eu procurava... Mas também não foi por acaso, ainda que este muitas vezes tenha papel fundamental no processo. “impresso no Brasil – Outono de 1984” Nenhuma dedicatória (o que também gosto nos livros de sebo), apenas uma assinatura datada 07/84. O que significa apenas, que alguém leu no inverno...

Ainda que hoje exista novas vertentes, este livro é parte da biblioteca básica de quem se interessa pelo tema. Woodcock dá um panorama da história do anarquismo, mostrando como foi o movimento principalmente na França, Espanha, Itália e Rússia; relatando brevemente nos E.U.A, sobre a colônia Nova Harmonia e colônia Utopia. A todo tempo correlaciona as principais influências: Kropotkin, Bakunin, Proudhon e outros mais influentes em determinados países e situações históricas. Uma verdadeira viagem no tempo.

Sobre a América Latina apenas esboça, e coloca uma ligação destes durante o século XIX com Espanha e Portugal por condições sociais semelhantes, o que favoreceu a difusão dos ideais anarquistas, principalmente por espanhóis, embora italianos também tenham desempenhado este papel mais fortemente na Argentina.
Por aqui cita a organização de artesãos e operários de indústria até o começo da década de 20 seguindo organização anarco-sindicalista.Fala também da colônia Cecília no capítulo referente a Itália.
Por vezes a leitura torna-se cansativa por conter muitas informações históricas nos diferentes países com suas peculiaridades anarquistas, mas de jeito nenhum fica desinteressante por este fato.

Trechos “...As causas perdidas podem ser as melhores- e normalmente são-, mas uma vez perdidas jamais voltarão a triunfar. E isso provavelmente é tudo que têm ao seu favor. Pois as causas são como os homens, e deveríamos permitir que morressem tranquilamente, para que o lugar por ela deixado fossem ocupados por novos movimentos que, talvez, viesses aprender tanto com suas virtudes quanto com suas fraquezas...”

“...Olhe nas profundezas de seu próprio ser”, disse Peter Arshinov, o amigo de Makhno. “ Busque a verdade e compreende-a por si mesmo. Ela não se encontra em nenhuma outra parte.” Nessa insistência em que a liberdade e a auto realização moral são interdependentes, e pois, uma não pode viver sem a outra, repousa o princípio fundamental do autêntico anarquismo...”

domingo, 25 de setembro de 2011

Anarquistas graças a Deus


Zélia resgata suas memórias da infância e parte da adolescência narrando suas percepções acerca do cotidiano de sua família (imigrantes italianos e anarquistas) durante todo o período que residiram na casa da rua Alameda Santos, SP. Com linguagem simples, com um “q” de criança que conta o que percebe e como se sente, possibilita viajarmos  um pouquinho na sua história e sermos remetidos a  época e fatos da narrativa.

Trechos:

(Sobre quando seu Ernesto deixou o trabalho de motorista) “Mas seu Ernesto não nascera para servir patrões. Não era homem para andar de luvas, empertigar-se ao abrir portas de carros, permanecer imóvel como estátua enquanto os patrões subissem ou descessem do automóvel, receber ordens.Positivamente não nascera para aquilo. Deu um basta, deixou o emprego.”

(Sobre SP)”... Fora esse detalhe, o do trânsito, a cidade crescia mansamente. Não havia surgido ainda a febre dos edifícios altos; nem mesmo o “Prédio Martinelli” – arranha céu pioneiro em São Paulo, se não me engano do Brasil- fora ainda construído. Não existia rádio, e televisão, nem em sonhos. Não se curtia sons em aparelhos de alta-fidelidade. Ouvia-se músicas em gramofones de tromba e manivela, havia tempo pra tudo, ninguém se afobava, ninguém andava depressa.”

(Sobre os enterros) ...”Quando havia algum enterro- no dizer de Savério- crescia a animação, os vizinhos apostavam: quantos cavalos conduzirão o coche funerário? Quantos automóveis o acompanharão? Quantos carros com coroa? Mais homens ou mulheres no cortejo?..”

(Colônia Cecília) “Cardias ainda ia mais adiante: nas ultimas páginas do seu estudo, seus planos, fazia um apelo às pessoas que estivessem de acordo com suas teorias (...) por fim Francisco Arnaldo Gattai encontrava alguém com dinamismo e inteligência, disposto a tornar realidade um sonho, seu e de outros camaradas”

“...Foi no livro do escritor Afonso Schmidt, “Colônia Cecília” publicado em 1942 em São Paulo, que encontrei algumas respostas as minhas indagações, interei-me da extensão da aventura anarquista...”

“...Havia ainda a versão anticlerical do tio Guerrando...”

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Os condenados - A trilogia do exílio - Oswald de Andrade



“Um velho barco tem sempre uma grande história, uma história maior que a do oceano” pg 328 Este trecho do livro resume a sensibilidade “cinematográfica” duma obra de arquivo de vivências pessoais do escritor.



Somos todos barcos...

Orelha(trecho):” Documento do difícil começo do modernismo em SP de 1917 a 1921, romance vaiado na semana de Arte Moderna, retrato do artista brasileiro quando jovem, “Os condenados” reúne os três romances planejados por Oswald para “A trilogia do exílio” no formato original – Os condenados (Alma) (1922). A estrela do absinto (1927) e A escada vermelha (1934). Verdadeiro Roman-fleuve do modernismo, intenso e variado, de personagens que se conhece, segundo Mário da Silva Brito, como Mary Beatriz – síntese de Kamiá, Landa e Dayse- na vida de Oswald; Jorge d´Avelos, síntese do próprio autor com o escultor Brecheret, e Mongol, a Pagu da rebeldia libertária. Romance de primeira geração modernista, drama exuberante e sofrido dos jovens artistas em rebelião contra o conservadorismo da sociedade paulistana, na procura tortuosa de uma vida autêntica, vivendo cenas do espetáculo do sofrimento humano, conta a história de lutas, castigos, desesperos e condenação, onde Carlos Drummond de Andrade viu “uma dor positiva, flagrante, uma dor nua”. Lança um grito de angústia e uma crítica radical dirigidos à família, à igreja, à imprensa e à própria história nacional, uma “indominável revolta contra o meio social” (Nestor Victor)
Monteiro Lobato foi o primeiro a ver a vida de Luquinhas “primorosamente cinematográfica numa série de quadros à Griffth”(1922) O estilo se adapta como um Emaillot à vida trepidante do século” (Sérgio Miliet, 1941)...”

Personagens/cenas (trechos) – Velho Lucas (avô de Alma) “ O velho Lucas, recolhido ante o oratório pequenino e sem vidro dos filhos falecidos,com santos nas paredes internas e uma corte de figuras celestes de diversos tamanhos, trazidos ainda do Amazonas, rezava por todas as madrugadas pálidas ou azuis. Nada queria da vida que lhe dera alguma coisa e tirava mais do que dera. Tinha o cão pequenino, a neta ruiva, o moleque. E sabia que
Deus o esperava no fim das tardes vacilante de seus dias.”

Alma/Telegrafista – “Alma vestia-se numa auréola,rindo muito o seu riso desigual e lascivo daquela amor macambúzio.
Sob o abajur, ouro e azul, o belo corpo numa camiseta transparente e curta, maxixava cantando:
-Tari-tari!Bem picadinho!Vou dançar...
João sentara-se pensando na impossibilidade de prolongar aquela vida.
Na íntima penumbra do peito, sentia correr-lhe um rio de tristezas atávicas, inexpressivo, surdo e tenebroso.
Pensava na sua incapacidade invencível para as festas da terra. Seus pais nunca haviam maxixado, nem sua irmã louca, pobre Ofélia sem Hamlet...”

Jorge- “ Fora sempre um fragmentário. Em torsos quebrados, metades, estudos largados, concentrava numa predileção alegre e constante a força reveladora da sua arte. Era um criador de mutilações”

“Sentia-se cansado. Resignava-se. Aceitaria doravante as diminuições que viessem. Era isso mesmo a vida humana- uma série de quedas físicas e de provações morais, em torno de uma grave e íntima ascensão...”


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Todos os homens são mortais - Simone de Beauvoir





Trata-se da existência eterna de Fosca, nascido na Itália, em 17 de maio de 1229. Aceita tomar o elixir da imortalidade guardada ha anos por um mendigo que sempre adiou bebê-lo e ofereceu a Fosca em troca que este o deixasse viver em tempos de guerra.
“Tenho medo de morrer, mas uma eternidade de vida é demais” assim define o mendigo e assim sente-se Fosca com o passar do tempo, o peso da sua eternidade. Em séculos demonstra afetividade por algumas pessoas: Catarina, sua primeira esposa, esboça amor ao seu neto deste primeiro casamento, séculos depois insita a viver em tempos de paz por seu filho Antônio, seu amor inatingível por Beatriz que amava tanto Antônio como seu próprio sofrimento e debruçava-se aos livros, o amigo Carlier, Marianne de quem escondeu por anos seu verdadeiro destino e Régine, atriz.

Orelha: “ Através de Fosca, personagem do século XIII, conde insatisfeito com Carmona, pequena cidade a seus pés, Simone de Beauvoir empreende uma viagem atemporal por universos contrastantes:Itália, França, Áustria, Novo Mundo, onde quer que a curiosidade atiçasse o espírito de um ambicioso da glória.De posse do elixir da imortalidade, o nobre medieval se frustra paulatinamente em seus projetos, e chega a nossos dias, vindo a conhecer e amar Régine, jovem atriz de sucesso. Os choques advindos destas circunstâncias fazem com que o heróis se debata em meio a questões de suma importância: a matéria da felicidade, o destino, a transcendência, a liberdade, a vida”

Trechos: Ao despedir-se de Beatriz :
“ _ Adeus. Quando eu tiver partido talvez possa recomeçar a viver.
De chofre seus olhos apagaram-se.
_ É tarde demais _disse.
Contemplei com remorsos seu rosto balofo. Se eu não tivesse desejado tão imperiosamente sua felicidade, sem dúvida ela teria amado, sofrido, vivido. Eu a perdera muito mais seguramente do que perdera Antônio.
Disse:
_Perdoa-me.
Toquei os cabelos com os lábios, mas ela já era apenas uma mulher entre milhões de outras; e a ternura e o remorso tinham o sabor das coisas passadas.

Quando Carlier suicida-se:
“Afastei-me. Fui deitar-se atrás de uma árvore. Pensava:”E agora, o que vai ser de mim”. Se não o houvesse encontrado, talvez tivesse podido continuar a caminhar durante cem anos, mil anos. Mas tinha-o encontrado e parara, e não podia reiniciar a caminhada. Olhava a lua subir no céu, quando repentinamente ouvi um tiro no silêncio. Não me mexi,Pensava:” Pra ele acabou. Não será nunca possível abandonar a mim mesmo, deixando atrás de mim tão somente uns ossos secos e nus?”.A lua brilhava, como brilhara na noite em que eu saíra alegre e tremendo de um canal escuro, como brilhava por sobre as casas incendiadas: naquela noite um cão uivava; eu ouvia dentro de mim o longo lamento que subia para o bloco de luz parada. Nunca se apagaria aquele astro morto. Nunca se esvairia este gosto de solidão e de eternidade que era minha vida.”

Sobre Marianne:
“Olhou-me: seus lábios esboçaram um sorriso e ela perguntou envaidecida:
_Agradar-lhe-ia realmente?
Dei de ombros; como explicar que desejava sua presença tão somente para matar o tempo, que tinha necessidade dela pra viver, as palavras me trairiam, diria demais ou de menos;desejava ser sincero com ela, mas nenhuma sinceridade me era permitida. Disse rapidamente:
_Sem dúvida.”

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969



O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969
Textos e materiais de Jerzi Grotowiski de Ludwik Flaszen com um escrito de Eugênio Barba

Curadoria de Ludwik e Carla Pollastrelli com a colaboração de Renata Molinari. São Paulo: Perspectiva: SESC; Pontedera, IT: Fondazione Pontedera Teatro, 2007.


Nos últimos meses, em meio algumas “correrias” cotidianas li este livro. Basicamente, sem descrever maiores detalhes, como o próprio título descreve, são vários textos de 1959-1969, conferências e trechos de espetáculos. Discorre sobre o que é considerado essencialmente do teatro partindo do campo de ação (toda sala é platéia/teatro sem palco) chegando ao ator (corpo e ofício).
Fala também sobre ritualidade, arquétipo e mito.


Trechos:


Heráclito – “ Aquilo que se opõe converge, a mais belas das tramas forma-se dos divergentes; e todas as coisas surgem segundo a contenda”


“ A essência do teatro que procuramos é pulsar, movimento e ritmo”


“ Para dar a vida a um novo ser, são necessários dois seres diversos: este novo ser é o espetáculo, nós e as fontes, o que é individual e o que é coletivo: são justamente estes dois seres diversos que devem dar vida ao terceiro”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

As Moscas



Continuo sem tempo de ler ou escrever sobre o que escrevo aqui de costume, aliás o tempo continua diminuto para dedicar-me as leituras também. Por boa causa.



Como é um blog pra você e as moscas, nada mais justo do que homenagea-las, com um texto deste autor que vale a pena conhecer.












As Moscas




Augusto Monterroso




Há três temas: o amor, a morte e as moscas. Desde que o homem existe, esse sentimento, esse temor, essas presenças nos acompanham sempre. Tratem os outros dos primeiros. Eu me ocupo das moscas, que são melhores que os homens, não que as mulheres. Fazem anos tive a idéia de reunir uma antologia universal da mosca. Continuo querendo. Sem embargo, logo me dei conta de se tratar uma empresa praticamente infinita. A mosca invade todas as literaturas e, claro, onde alguém põe o olho encontra a mosca. Não há verdadeiro escritor que em uma oportunidade não lhe tenha dedicado um poema, uma página, um parágrafo, uma linha; e se é escritor e não o tenha feito, aconselho-te que siga o meu exemplo e corras a fazê-lo. As moscas são Eumênides, Erínias; são castigadoras. São as vingadoras de não sabemos o quê; mas sabes que alguma vez te perseguiram e que te perseguirão sempre. Elas vigiam. São as enviadas de alguém inominável, boníssimo e maligno. Seguem-te. Observam-te. Quando finalmente morrer é provável, e triste, que baste uma mosca para levar quem pode dizer a onde tua pobre alma distraída. As moscas transportam, herdando infinitamente a carga, as almas de nossos mortos, de nossos antepassados, que assim continuam próximos de nós, acompanhando-nos, empenhados em nos proteger. Nossas pequenas almas transmigram através delas e elas acumulam sabedoria e conhecem tudo o que nós não nos atrevemos a conhecer. Quem sabe o último transmissor de nossa torpe cultura ocidental seja o corpo desta mosca, que vem reproduzindo-se sem enriquecer-se ao longo dos séculos. E, bem observada, creio que diga Milla (autor que supostamente desconheces mas graças a ocupar-se da mosca hoje é mencionado pela primeira vez), a mosca não é tão feia como à vista parece. Mas à primeira vista não parece feia, precisamente porque ninguém viu uma mosca à primeira vista. Toda mosca foi vista sempre. Entre a galinha e o ovo há a dúvida de quem veio primeiro. A ninguém ocorreu se a mosca veio antes ou depois. No princípio foi a mosca. (Era quase impossível que não apareceria aqui isso de que no princípio foi a mosca ou qualquer outra coisa semelhante. Dessas frases vivemos. Frases moscas que, como as dores moscas, não significam nada. As frases perseguidoras de que estão cheios nossos livros.) Esqueça mais fácil que uma mosca pare no nariz do papa que o papa pare no nariz de uma mosca. O papa, o rei ou o presidente (o presidente da república, claro; ou o presidente de uma companhia financeira ou comercial ou de produtos equivalente é geralmente tão ignorante que se considera superior a elas) são incapazes de chamar a sua guarda suíça ou a sua guarda real ou a seus guardas presidenciais para exterminar uma mosca. Ao contrário, são tolerantes e, quando muito coçam o nariz. Sabem. E sabem que a mosca também sabe e os vigia; sabem que o que na realidade temos são moscas de guarda que nos cuidam a toda hora de cair em pecados autênticos, grandes, para os quais se necessitam anjos da guarda de verdade que logo se descuidem e se voltem cúmplices, como o anjo da guarda de Hitler, ou como o de Johnson. Mas não há que fazer caso. Retorna ao nariz. A mosca que pousou no seu nariz é descendente direta da que pousou no de Cleópatra. Uma vez mais caí nas alusões retóricas pré-fabricadas que todo mundo já fez antes. A mosca quer que a envolva nesta atmosfera de reis, papas e imperadores. Consegue. Domina-te. Não podes falar dela sem sentir-se inclinado a grandeza. Oh, Melville, terias que recorrer a todos os mares para instalar ao fim essa grande baleia sobre teu escritório em Pittsfiel, Massachusetts, sem reparar que o mal revoava desde muito ao redor do teu sorvete de morango nas calorosas tardes de tua infância, passados anos, sobre ti mesmo quando ao crepúsculo te arrancava um que outro pelo da barba dourada lendo Cervantes e polindo teu estilo; e não necessariamente em aquela enormidade informe de ossos e esperma incapaz de fazer mal nenhum a não ser a que interrompesse sua sesta, como o louco Ahab. E Poe e seu corvo? Ridículo. Tu olhas a mosca. Observa. Pensa.




Augusto Monterroso nasceu em 1921, na Guatemala. Em 1944, mudou-se para o México e, depois de muito observar a fauna daquele país e de outros, se convenceu de que "os animais se parecem tanto com o homem que às vezes é impossível distingui-los deste". Assim surgiu "A ovelha negra e outras fábulas", lançado pela Editora Record - Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar.Dele disse o escritor russo que se criou nos Estados Unidos, Isaac Asimov: "Os pequenos textos de A ovelha negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler "O macaco que quis ser escritor satírico", jamais voltei a ser o mesmo."Foi agraciado, em 2000, com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios. "O dinossauro", uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". Augusto Monterroso faleceu em fevereiro/2003.






O texto acima teve a tradução de Marcos Alqueire.






quarta-feira, 18 de maio de 2011

Da criação ao roteiro



Autor: Doc Comparato



Segunda Edição

É um livro fundamental pra quem pretende desenvolver roteiros. Assim segue parte da apresentação:
“... Trata-se, portanto, de um livro irrecusavelmente didático, voltado em primeiro lugar para os principiantes. Mas o caráter pedagógico não inibe a viveza da expressão, que sabe incorporar, quando necessário, o tecnicismo insubstituível.
A matéria está distribuída por dez capítulos que focalizam desde a idéia aos primeiros apontamentos até o roteiro em sua forma final, passando por tópicos como conflito, a personagem, ação, tempo e unidade dramáticas. Todos os capítulos começam por um texto reflexivo sobre o assunto em pauta e terminam por uma recapitulação ordenada da explanação e uma proposta de exercícios práticos que visam testar a apreensão e compreensão dos conteúdos...”

O capítulo primeiro tem início com um trecho de A. Chekov:

“Conselho aos dramaturgos...tente ser original na sua obra e tão diligente quanto lhe for possível, mas não tenha medo de se mostrar pateta. Devemos ter liberdade de pensamento e só é um pensador emancipado aquele que não tem medo de escrever patetices. (...) a brevidade é irmã do talento. Lembre-se, a propósito, de que declarações de amor, de infidelidades de maridos e esposas, viúvos, órfãs e outras desditas vêm sendo descritas desde há muito. (...)e o principal é que o pai e a mãe devem comer. Escreva. As moscas purificam o ar, e as obras, a moral.”

Particularmente achei a leitura bastante interessante e didática. O livro é finalizado com pósfacio de outros roteiristas onde Jonathan Gelabert coloca com humor uma “prevenção” às dez máximas que o jovem roteirista ouvirá nos seus primeiros anos de profissão: Aí vão elas, sem os comentários.

1” -Pago menos, porque você não é ninguém”
2- “Esta perfeito, mas...”
3“Tenho nas mãos algo sensacional. Por que não...?”
1- “Eu mesmo faria, mas não tenho tempo.”
2- “Você está começando, tenha um pouco de paciência”
3- “É que vocês, os escritores...”
4- “Eu, na verdade, não sei o que faço aqui.”
5- “Esta idéia era minha.
6- ”Como é que alguém conseguiu um subsídio pra fazer isso?”
7- “O ator deve dizê-lo, de qualquer maneira.”